Eles têm razão

11 mar

Há muito tenho refletido sobre as manifestações contra a presidenta Dilma. Percebi que como reação a esses movimentos, muitos militantes e simpatizantes da Coração Valente – inclusive eu, em alguns momentos – tentaram desqualificá-los, ironizá-los e até ridicularizá-los.

No último final de semana, caçoamos do panelaço, lembramos que muitos não sabiam nem onde ficavam as panelas – o que é verdade -, e, desde segunda-feira, intensificamos as críticas à manifestação do próximo dia 15.

Mas o fato, companheir@s, é que com essas atitudes, nos colocamos na mesma posição daqueles que tanto criticávamos no passado. Sentamo-nos no sofá, apontamos o dedo, chamamos os que estão na luta (sim, na luta, mesmo que não seja a nossa luta) de baderneiros, tal quais velhos oligarcas contra o MST, CUT, movimentos LGBTs, entre tantos outros.

Hoje pela manhã, me peguei assistindo a deputados do PSDB defendendo a derrubada do veto presidencial à correção de 6,5% na Tabela do Imposto de Renda. Aprovada pelos parlamentares federais em dezembro, a correção isentaria de Imposto de Renda as pessoas que ganham até R$ 1.903,98 por mês. O teto de isenção é, atualmente, de R$ 1.787,77. Ainda que Fernando Henrique tenha passado mais de cinco anos sem fazer a correção, prejudicando milhões de pessoas, o fato é que deputados do PSDB assumiram um discurso que sempre foi nosso! Redução da carga-horária dos psicólogos para 30 horas semanais? Dilma vetou. Seguro-desemprego só depois de 18 meses de trabalho? Dilma aprovou. O que é isso???

A verdade é que as pessoas têm direito de reclamar SIM! Não só os paneleiros do último domingo como nós também! Votamos em um governo que na hora do arrocho deveria taxar as grandes fortunas, não os assalariados que pagam uma das maiores cargas-tributárias sobre o consumo no mundo! Votamos em um governo com habilidade para conduzir a reforma política. Votamos em um governo pronto para colocar pautas como a descriminalização da maconha e do aborto em discussão. Mas se nada disso foi feito até agora, é hora de sairmos às ruas e exigir que o nosso projeto de sociedade seja colocado em prática, e não esse neo-liberalismo disfarçado e pendenga.

Dia 15, o projeto perdedor das urnas vai às ruas. Mas a nossa obrigação de tomar as trincheiras das avenidas, becos e vielas é muito maior, pois ganhamos e até agora não levamos! E é por isso que na próxima sexta eu vou soltar a minha voz nas estradas, pois não quero parar. O que conquistamos até agora foi muito importante, mas o nosso déficit é de mais de 500 anos, não nos esqueçamos disso.

Porque fui (e continuo sendo) Dilma

9 fev
Em 2014 fui às ruas fazer campanha para Dilma. E iria de novo.

Em 2014 fui às ruas por Dilma. E, ao contrário do que anseiam os oposicionistas, iria de novo.

Os bons perdedores sempre tiveram meu respeito. Saber perder é fundamental no esporte, no amor, e, sobretudo, na política. Saber perder é o que mantém viva a democracia e nos afasta de tempos sombrios e não muito distantes da história brasileira, quando a força suprimia a liberdade e o sangue afogava a esperança. Muitos morreram ou foram torturados na luta por um novo País, entre eles Dilma Vana Rousseff, minha presidenta, e não são manchetes de jornais golpistas e nem discursos acalorados de uma oposição raivosa (e má perdedora) que diminuirão meu carinho, admiração e confiança nesta guerreira.

Falo de saber perder porque ainda hoje, quatro meses após a eleição, ainda tentam forjar um terceiro turno. O projeto PT de sociedade saiu mais uma vez vitorioso nas urnas, e ainda que a diferença tenha sido de “apenas” 3,4 milhões de votos, essas são as regras do jogo e vamos SIM continuar governando e mudando o País nos próximos quatro anos. Sou defensor da democracia e qualquer discurso que atente contra ela não terá nada além do meu sincero desprezo.

Sobre as medidas econômicas e trabalhistas tomadas nas últimas semanas, eu, como muita gente, tenho minhas críticas. Dói saber que quem recebe míseros R$ 1.787,77 terá 7,5% de sua renda abocanhada pelo leão, que os juros para o financiamento da casa própria subiram de 9 para 11% a.a. (fui atingido diretamente por essa pancada), e que serão necessários pelo menos 18 meses na mesma ocupação para que o trabalhador passe a ter direito ao seguro-desemprego.

Mas tudo isso, nem de longe, apaga os avanços vividos pelo País nos últimos 12 anos. No plano econômico, temos o menor índice de desemprego da história (4,8% logo após as eleições) e a menor inflação média desde a redemocratização (5,95%, ante os 12,04% de FHC). A política de valorização do salário mínimo aumentou em 71% seu poder de compra e fez com que ele atingisse o maior patamar de todos os tempos: R$ 788,00. Além disso, diversificamos e ampliamos nossas relações comerciais com o mundo inteiro, passamos de devedores a credores do FMI e nos tornamos a 7ª economia do planeta.

No bojo das mudanças, o foco sempre foi o povo. Enquanto avançávamos, retiramos 36 milhões de pessoas da pobreza extrema (22 milhões apenas no Governo Dilma) e outras 42 milhões ascenderam à classe média. Críamos 282 novos Ifes e 18 novas universidades federais, geramos mais de 3,5 milhões de vagas no ensino superior, 100 mil universitários foram enviados ao exterior com bolsas de estudos graças ao Ciências sem Fronteiras, e 8 milhões de pessoas se formaram pelo Pronatec.

Mais uma vez, repito que não são os jornais que pautarão minhas críticas ao Governo. Corrupção na Petrobras tem de ser investigada, quem errou deve pagar, mas não me arrependo do meu voto e nem aceito o rótulo de cúmplice de ingerências na companhia. Sabe por quê? Porque nunca se investigou tanto a corrupção como no governo Dilma. Porque a Petrobras é um dos maiores símbolos de nossa soberania e de nossa riqueza tecnológica e científica, e há em curso uma clara campanha para promover sua desvalorização. E porque o objetivo final dessa campanha é leiloar a Petrobras e nosso pré-sal a preço de banana para grupos multinacionais, como foram a Vale, a Telebrás e tantas outras gigantes estatais.

Como se não bastassem todos esses fatores, ainda há outro ponto fundamental. Ética e honestidade nunca foram qualidades de nossos adversários do segundo turno. Protegidos pela mídia, seus maiores escândalos nunca tiveram o mesmo destaque que a menor denúncia sobre um dos quadros do PT. Quantas vezes você viu, na grande imprensa, matérias sobre a compra de parlamentares para a reeleição de FHC, a privataria tucana, a construção de aeroportos nas terras da família de Aécio ou os desdobramentos da investigação sobre o helicóptero do pó? Se chove pouco e falta água em SP, a culpa é da natureza. Se chove pouco e as hidrelétricas não atuam com 100% de seu potencial, a culpa é da Dilma! Mera coincidência? Óbvio que não. E dados do Manchetômetro, uma pesquisa realizada pelo Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública da UERJ, comprovam que a perseguição ao maior partido de esquerda do hemisfério sul é real.

Veja o levantamento sobre a cobertura dos jornais Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de S. Paulo nas eleições de 2014. Enquanto Dilma teve apenas 10 notícias positivas, Aécio foi contemplado com 41. Já a diferença nas matérias negativas é gritante: 44 contra Aécio e 212 contra a Dilma!

eleições 2014

Se você é anti-PT ou anti-Dilma, deve ter pensado “ah, mas Dilma é a presidenta, o foco nela é maior”. Mas não é bem assim. Observe os dados da cobertura da corrida presidencial em 1998:

eleições 1998

Disparidade extrema, não é mesmo? A campanha contra Lula era tamanha que Fernando Henrique alcançou 33 manchetes positivas e só 18 negativas, isso em pleno período eleitoral! Já Lula, ainda sem o fardo do “mensalão” nas costas, contou com duas míseras notícias favoráveis e 26 contrárias.

Poderia ficar aqui analisando todas as campanhas, mas este não é meu objetivo e os dados estão disponíveis no site, a quem interessar. Mas é por tudo isso que minhas críticas não são pautadas pelos comentaristas da Veja ou da Globo News. Em oposição ao que eles pregam, eu não quero austeridade e muito menos redução do papel do Estado. Pelo contrário, quero o fortalecimento das empresas estatais, a divisão da renda e mais direitos e oportunidades para as minorias (negros, mulheres, LGBT’s, índios e tantas outras). Também quero mais impostos para os mais ricos, taxação das grandes fortunas, ampliação da reforma agrária e 40 horas semanais para os trabalhadores.

Minhas reivindicações não provém da agenda neoliberal da mídia, e sim de uma análise fundamentada nas teses da esquerda, e, neste sentido, não me furto a rechaçar com veemência a escolha de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura e de Joaquim Levy para a Fazenda. A indicação destes dois não cabe em um governo progressista e vai contra tudo aquilo que eu (e a maioria dos eleitores de Dilma) busco e acredito.

Por tudo isso, reafirmo meu compromisso com a reforma política, instrumento imprescindível para a redução da corrupção, do fisiologismo partidário e das barganhas por cargos e ministérios. Reafirmo também meu compromisso com Dilma e com o Partido dos Trabalhadores, nascido do sonhos de operários, agricultores, professores, sindicalistas, intelectuais, artistas, comunidades eclesiais de base, entre tantos outros grupos e movimentos sociais.

E a você, caro amigo, que responsabiliza o eleitorado de Dilma pelo aumento da gasolina (até porque os donos de postos não tem nada a ver com isso, não é mesmo?), pelo aumento da energia e pela corrupção na Petrobras, eu pergunto: Seu deputado estadual votou contra ou a favor do aumento do próprio salário para R$ 26 mil? Contra ou a favor do retorno do pedágio? Seu governador acabou com o projeto do aquaviário, com os projetos de cultura e com os concursos públicos no Espírito Santo? E seu senador e seu deputado federal, o que dizem da reforma política? São a favor do financiamento por empresas? Antes de bradar palavras de ordem no Facebook, pesquise o histórico de seu candidato, entre no site do TSE e veja quem bancou sua campanha, se está trabalhando pelos eleitores ou pela iniciativa privada. Depois me chame para sentar na mesa do bar e discutir tudo isso tomando uma boa gelada.

Reggae, a música que revoluciona o coração

3 mar
Reggae é a dança desengonçada e despreocupada de Hélio Bentes

Reggae é alegria, é a dança desengonçada e despreocupada de Hélio Bentes

Questionam-me o porquê desta minha fixação pelo reggae. Perguntam, “não seria o reggae coisa de maconheiro”? Respondo que sim, o reggae é mesmo coisa de maconheiro. O que o maconheiro busca se não uma forma de aliviar as pesadas cruzes que carregamos no dia-a-dia? Ao fumar maconha, ele não procura transcender a si mesmo e entrar em contato com algo superior? Não busca alegria e diversão, sem as quais não se vive, apenas se sobrevive?

Não faço uso da cannabis, até porque, nos dias atuais, seria eu corresponsável pelo sangue derramado, pela violência e pelas vidas tiradas de milhares de pessoas. Mas essa tragédia corrente não é culpa da erva. É culpa da covardia e da hipocrisia da própria sociedade, que outorgou a bandidos o direito exclusivo de comercializá-la e transformou em criminoso quem a cultiva para consumo próprio.

Fundamentalistas religiosos, que desempenham um papel fundamental nesta guerra, precisam enxergar que, ao contrário de outras substâncias entorpecentes (até mesmo as legalizadas, como álcool), a maconha não tem a mancha do pecado, ou seja, não é fruto da manipulação do homem. Ela é criação do próprio Deus e está aí para ser utilizada respeitando-se o livre arbítrio e a integridade de cada ser humano. Sendo toda criatura sagrada, o homem incorre em pecado ao tentar criminalizá-la, satanizá-la. E nós já estamos pagando um preço bastante alto por isso.

Mas, voltando ao motivo pelo qual escrevo hoje, a quê se deve minha fixação pelo reggae? Para mim, e acredito que para muitos regueiros do Brasil e do mundo, a explicação vem do que ele proporciona a quem o escuta, vive, respira. De todos os estilos musicais, ele é o que tem as raízes mais cravadas no divino, e, de lá, traz os frutos que dão força e fé ao homem. A exemplo da palavra de Jesus Cristo, o reggae arrebata o homem (e a mulher, as crianças, os velhos e os jovens) em um conjunto de três fases.

Em primeiro lugar, ele acolhe. Independentemente de sua cor, seu passado, sua religião (ou ausência de uma), seus pecados, suas faltas, o reggae abre as portas para você.

Em segundo, ele conforta. Seja qual for o motivo de seu pranto, o reggae vai abraçá-lo, enxugar suas lágrimas e, como seu melhor amigo, dizer as palavras certas para acalmar seu coração.

Por último, ele traz força e energia para você seguir em frente como um guerreiro. A vida é dura, os problemas parecem ser maiores do que nossa capacidade de resolvê-los, mas um “Get Up, Stand Up” sempre ajuda a ultrapassar obstáculos que você jamais imaginou superar.

Porém, o reggae é muito mais que isso. Um de seus principais atributos é o de sempre nos mostrar, quando estamos lá embaixo, nos sentindo inferiores, que não somos menores do que ninguém. Já quando conseguimos grandes feitos e imaginamos estar na crista da onda, suas letras trazem de volta a humildade e a simplicidade, nos lembrando que também não somos maiores do que qualquer outro ser humano.

Reggae é respeitar pai e mãe, é conhecer e honrar seu passado, seu presente e seu futuro. Amar a natureza, denunciar as injustiças sociais e não se furtar, por um minuto sequer, a combatê-las.

O reggae também é alegria, é festa, é comunhão de povos e culturas. É o tambor africano, é a marimba caribenha, o pandeiro brasileiro. São as letras de Bob, o ritmo de Jimmy Cliff, a poesia de Maneva, a dança desengonçada e despreocupada de Hélio Bentes. É a força da música a atravessar as muralhas da China com Long Shen Dao e a romper a barreira do pop americano com Soja. São judeus e muçulmanos sob a mesma vibe em um show de Matisyahu.

E, nessa celebração da vida, cabe sempre mais um convidado. Essa música que a gente canta, essa música que a gente dança, essa música revolucionou! E vai seguir revolucionando.

Plantando a raiz do amor

2 nov

Planta e Raiz… Há algum tempo quero escrever sobre esses caras.

Logo na primeira vez em que os ouvi e vi na TV Cultura, no comecinho dos anos 2000,  percebi que havia algo que os diferenciava em relação às demais bandas de reggae. Nada contra quem usa dreads ou se “fantasia” para fazer um show (muito pelo contrário!), mas todos da banda, sem exceção, se vestiam como pessoas “comuns”. Do baterista Cuio ao guitarrista Fernandinho, a simplicidade era a marca principal.

Planta & Raiz “A humildade é uma arma que se carregada não falha”

Trajar-se de maneira discreta, ter atitude sóbria no palco, fez e faz com que as atenções de quem assite a um show do Planta se voltem simplesmente para a música. A qualidade técnica de cada integrante, claro, é indiscutível, e, quando somadas e harmonizadas às letras do vocalista Zeider, transformam o som da banda paulista em um mix de amor, paz, Deus no coração e fraternidade. A positividade bate com força e é difícil não entrar em sintonia com os irmãos a volta, consigo mesmo e com todas as coisas boas da vida.

Além de trazer paz interior, de ser trilha sonora perfeita para quem está partindo pro surf ou para uma good trip, as canções do Planta e Raiz também apresentam pesadas críticas ao sistema e ao estilo de vida individualista que a todo momento nos é imposto. Falam contra o consumismo, derrubam os muros da corrupção e do ódio, enfim, seduzem seus ouvintes pelo bem.

Em 2011 eles deram um passo adiante na carreira. A música “Eu não acredito no sistema” foi escolhida como tema do filme “Assalto ao Banco Central“, do diretor Marcos Paulo Simões. Quem é fã da banda não pode deixar de assistir e curtir mais essa pedrada na trilha sonora. Quem não conhece o som do Planta (muito difícil!) tem a oportunidade de assistir a um ótimo filme nacional e ouvir uma das maiores bandas do reggae brasileiro!

Campanha da Fraternidade 2011: Igreja e fiéis discutem a vida no planeta

7 dez

A preparação para a Campanha da Fraternidade 2011 já está na reta final. No penúltimo sábado de novembro (20), mais de 150 membros da Arquidiocese de Vitória, entre padres, religiosos e leigos, se reuniram para debater e refletir sobre a “Fraternidade e vida no planeta”, tema da Campanha no próximo ano.

Padre Luiz Carlos Dias aborda os impactos que o sistema capitalista e o consumismo por ele imposto têm gerado no planeta

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Para Pais e pais

8 ago

Incrível como, às vezes, a vida se assemelha a dois rios, correndo lado a lado, mas em direções opostas.

Um deles é você, filho, que nasce frágil, e no decorrer de seu percurso vai ganhando força, adquirindo experiência, desbravando novos territórios.

O outro é seu pai. Imponente por natureza, lhe dá a segurança necessária para passar por aqueles terrenos espinhosos, cheios de pedra ou de lama. Essa figura não necessariamente é a do pai biológico. Pode ser um avô-pai, uma mãe-pai, uma avó-pai, até um irmão-pai. Não importa. O fato é que com seus conselhos, broncas e lições, ele contribui, e muito, para a construção de seu caráter e de sua personalidade.

De certo que muitos só enxergam o amor nessas atitudes anos e anos depois, e aí, começam a fazer sentido aquelas velhas frases: “quando você tiver um filho, você vai entender”, ou “quando você tiver a minha idade, você vai entender”. E você realmente entende! O fantástico é que essa fase é a mesma em que o rio do pai começa a regressar à nascente. Então, ele volta a ser jovem (cometendo loucuras parecidas com as que você já deve ter feito), criança, até bebê, e você tem a oportunidade de adotar o próprio pai, retribuindo todo carinho e cuidado que lhe foram revelados em seu coração.

Infelizmente, vários filhos têm tomado essa situação como uma cruz, pesada demais para ser carregada. Assim, cada vez mais velhos são abandonados em asilos, praças, quiçá na própria casa.

Nesse mês dos pais, Deus convida todos os filhos a deixarem-no tirar o véu que os impede de enxergar o amor recebido no passado e, ao percebê-lo e senti-lo, transformarem gratidão e respeito em ação, em um amor renovado.

As boas coisas da vida

15 jul

Na crônica abaixo, publicada em 1988, Rubem Braga lista dez coisas simples mas que, no fundo, são o que realmente trazem explendôr e encanto a nossas vidas.

As boas coisas da vida

Uma revista mais ou menos frívola pediu a várias pessoas para dizer as “dez coisas que fazem a vida valer a pena”. Sem pensar demasiado, fez esta pequena lista:

– Esbarrar às vezes com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa garrafa cuja rolha é um sabugo de milho. O sabugo dará um certo gosto ao melado? Dá: gosto de infância, de tarde na fazenda.

– Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.

– Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para o seu lado e, de repente, dar um chute perfeito – e ser aplaudido pelos servente de pedreiro.

– Ler pela primeira vez um poema realmente bom. Ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler.

– Aquele momento em que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade – ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor.

– Sentir que você deixou de gostar de uma mulher que, afinal, para você, era apenas aflição de espírito e frustração da carne – a mulher que não te deu e não te dá, essa amaldiçoada.

– Viajar, partir…

– Voltar.

– Quando se vive na Europa, voltar para Paris, quando se vive no Brasil, voltar para o Rio

– Pensar que, por pior que estejam as coisas, há sempre uma solução, a morte – o assim chamado descanso eterno.

Navegando pela internet, descobrí um blog em que o autor segue o caminho oposto, e descreve as coisas ruins da vida. Vale a pena conferir!

http://farmerinthecity.blogspot.com/2004/02/as-boas-coisas-da-vida-uma-revista.html