Sábado, sete da matina. A essa hora, o toque do telefone parece ter dez vezes mais decibéis que as motos, carros, carretas e coletivos que vêm e vão pelas veias e artérias sob minha janela. Do outro lado da linha, o despertador ambulante pensa que, se falar devagar e baixinho, vai reduzir os efeitos colaterais de seu importuno, no caso, meu mau humor.
“Filipe, te acordei?”. Não, só acabou com meus planos de dormir até meio-dia no único dia que me permite tal proeza, penso. Mas, reconheço a voz que quase sussurra e, sendo ela de um amigo, me recolho a um reles pois não. Ao que ele diz: “Desculpe o horário, mas é que na próxima semana vai ser votada a emenda Pedro Simon na Câmara, e nós não podemos deixá-la passar de jeito nenhum! Nossos deputados já fizeram discursos emocionados sobre o pré-sal, a imprensa local já publicou matérias prevendo nossa pindaíba, e nada. Creio que o último recurso seja uma crônica encharcada de picardia e motejo, que afogue os parlamentares antes da votação. Você pode fazê-la? ”.
Aceito o desafio, mas como dos meus dedos só fluíra política e economia durante toda a semana, resolvo deixá-lo para depois. Salto da cama, vou para a cozinha, e enquanto passo o café, sou fisgado pelo aroma do arábica. O vapor d’água me envolve como uma névoa de prazer e júbilo. O pó umedecido no filtro ganha aspecto semelhante ao de um solo fértil. Me vejo colhendo todos aqueles grãos na plantação, torrando-os e moendo-os. O que demoraria dias para ser feito, em minha mente acontece em poucos segundos. Sem caneta nem papel, fotografo tudo com a retina, para que após cinco artigos ácidos publicados até a última sexta, eu possa presentear meus leitores com um dénouement no domingo pela manhã.
Porém, quando me sento para narrar, com a ponta do lápis, a aventura pelo cafezal da minha cozinha, soa a campainha. São 11 da manhã. Na porta, um deputado, cujo nome não cabe aqui revelar, insiste para que eu recorde a sociedade dos desmandos de José Carlos Gratz, enquanto esse mandava chuva à frente da Assembleia. Isso porque, na terça-feira, sairia a decisão do STJ para o pedido de Gratz, que solicitava a declaração de inconstitucionalidade da lei do Ficha Limpa. Caso o pedido fosse deferido, o ex-deputado poderia concorrer já nas próxima eleições, e segundo meu amigo, era preciso tentar barrar de todas as formas o retorno do Corleone capixaba.
Mesmo querendo me ver livre do combate aos picaretas e aos coronéis pelo menos naquele sábado, também aceitei o encargo. Por duas horas, aguardei a inspiração com muita transpiração da massa cinzenta, mas ela não chegou. Solução? Fui almoçar na casa da namorada. Refrescar a mente com aquela fragrância que só a mulher amada pode nos fazer sentir.
Meus planos eram de permanecer na casa dela, no máximo, até as quatro da tarde. Mas, a estrela mais linda e mais bela que brilha no céu de Vitória, de nome Karoline, me arrebatou até as 11 da noite. Lá fora, uma rosa já havia nascido, todo mundo já havia sambado, e meu barco já estava a partir. Agarrei-o pela popa antes que aqueles olhos fundos voltassem a me hipnotizar e regressei ao lar, quartel general de minhas produções.
Debrucei-me sobre o computador, na expectativa de terminar o mais rápido possível todas aquelas crônicas com críticas sociais, ironias e deboches. Queria começar a escrever logo sobre o cafezal da minha cozinha, quem sabe misturar a seu aroma a embriagante essência de minha namorada, agora carimbada no colarinho da minha camisa.
Quando já estava terminando, lá pelas 4 da manhã, eis que recebo uma mensagem no celular. “Cientistas brincam de Deus ao criar bactéria em laboratório, mas são incapazes de impedir o vazamento de petróleo no Golfo do México, que aliás, hoje completa dois meses. Por que não escrever sobre isso?”.
Ao ler a mensagem, corro para a janela e grito aos quatro cantos da capital: “Durante a semana eu até posso ser José Carlos de Oliveira, mas no fim de semana, por favor, me deixem ser Rubem Braga!”.